Congela.


Vem ter comigo. Vem até minha casa. A porta está entreaberta. Entra. Não me chames. Procura-me. Percorre todos os corredores. Percorre todas as divisões. Encontra-me. Vou-te contar um segredo, estou escondida na varanda. Sim, na varanda. O sol hoje, está bonito. Resplandecente. E o dia quente, agradável. Daqui a 10 minutos inicia-se aquele ritual habitual. O crepúsculo vai acontecer... não demores. Não quero perder este momento. Está a anoitecer cada vez mais rápido. A noite aproxima-se a passos largos. E tu ainda não chegaste. Porque não vens? Porque não queres vir? O que é que não te prende a mim? Eu já me prendi  há tanto tempo. É-me impossível pensar em te deixar. Eu não quero. Não consigo. Não sou capaz. Os meus pensamentos voaram, tal como as horas. Já está escuro. Tenho frio. A noite é gélida. Sinto no meu rosto, pequenas gotas de orvalho. E tu que nunca mais chegas. O meu coração está a transformar-se. Está a congelar. E agora? O que é que eu faço com isso? Tento parti-lo para ver se se ainda encontro uma réstia de esperança? Ou deixo-o congelar completamente? Não me importo de congelar. Não sofro, não sinto, torno-me imune. É nisto que me vou tornar mais cedo ou mais tarde. Num coração frio. Mas até lá, ainda o sinto quente e com vontade de assim permanecer. Sentimento ambíguo, culpa tua. Ora quero gelar, ora quero continuar quente. Sabes o que me mantém quente? Não, não és tu. São as borboletas que circulam no meu estômago, aquelas que alimentas constantemente. Essas borboletas, malditas sejam. Traidoras, deixaram-se alimentar facilmente por ti, bandido. Vendidas. "Deixa de as alimentar, deixa-as morrer à fome." balbuciei baixinho. Tu ainda não chegaste e o desespero toma conta de mim. Já as sinto a morrer aos poucos. Vou alimenta-las com aquela triste ilusão da tua presença. Ilusões essas que me trazem sorrisos de outrora, aqueles olhos castanhos cor-de-mel ocorrem-me na memória. "Deixa-te disso rapariga" digo eu baixinho. Mas algo se recusa a conceder-me esse desejo. Ainda não chegas-te. Estão quase todas mortas. "E agora? elas vão morrer. eu vou congelar. talvez seja melhor assim." Resigno-me. Mais uns minutos e tudo acabou. O telefone toca. Corro e atendo.
Não és tu.

3 Comentários:

Sara Martins disse...

tão perfeito querida!

Sara Martins disse...

obrigada linda

Niqui disse...

gostei imenso do texto. em parte, identifico-me.